A separação
Mora-me um Poeta / Que tento esconder - José Régio.
25.08.25

Cindy Sherman, 'Sem título' (Cosmo Cover Girl), 1990. Prova cromogénea, 43 x 28 cm. Coleção Norlinda e José Lima em depósito de longo prazo no Centro de Arte Oliva, São João da Madeira. Expo 'Grandes Mestre no Palácio', Figueira da Foz, agosto-setembro 2025.
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No Fedro, de Platão, Sócrates conta como Tamuz, rei de Tebas, recebeu o deus Thoth, o inventor da escrita. Thoth explicou ao rei a virtude da escrita: «Este é um ramo do conhecimento, ó rei, que tornará os Egípcios mais sábios e de melhor memória.» Tamuz respondeu: «Engenhosíssimo Thoth, um homem é capaz de criar os fundamentos de uma arte, mas outro deve julgar que parte de dano e de utilidade possui para quantos dela vão fazer uso. Ora, tu neste momento, como pai da escrita que és, por lhe quereres bem, apontas-lhe efeitos contrários àqueles que ela manifesta. E que essa descoberta provocará nas almas o esquecimento de quanto se aprende, devido à falta de exercício da memória, porque, confiados na escrita, é do exterior, por meio de sinais estranhos, e não de dentro, graças a esforço próprio, que obterão as recordações. Por conseguinte, não descobriste um remédio para a memória, mas para a recordação. Aos estudiosos oferece a aparência da sabedoria e não a verdade, já que, recebendo, graças a ti, grande quantidade de conhecimentos, sem necessidade de instrução, considerar-se-ão muito sabedores, quando são ignorantes na sua maior parte e, além disso, de trato difícil, por terem a aparência de sábios e não o serem verdadeiramente.» * Este diálogo, escrito cerca de 370 a. C., explica uma das experiências fulcrais do escrevedor iniciante, já que este se torna um recetor acrítico, imerso nos primeiros textos lidos, e à espera dos que ainda não leu.
A escrita, tal como a leitura, serve para o aperfeiçoamento da atividade intelectual. A atividade insufla e põe à disposição do usuário uma vasta gama de condutores e organizadores do pensamento, para construir um raciocínio ou responder a mensagens, fundados sob a mesma batuta. Mas o facto de haver analfabetos e gente que não lê nem escreve para além do que é oficialmente exigido, e tanta gente que foge desses exercícios, nada impede que o seu uso recorrente seja circular e dependente. Há quem delegue a escrita a funcionários, como no antigo Egito o escriba registava as leis do Faraó, podendo até este último ser analfabeto (hoje sofreria de iliteracia).
Vejamos um fenómeno do nosso tempo. A campanha de alfabetização do Estado Novo recebeu críticas severas. Sofreu resistência, como recordou Rómulo de Carvalho na História do Ensino em Portugal: «Em 1927, a escritora Virgínia de Castro e Almeida, considerando que existiam então em Portugal 75% de analfabetos, dizia no jornal O Século, que "A parte mais linda, mais forte e mais saudável da alma portuguesa reside nesses 75 por cento de analfabetos." Em alusão aos rurais que aprenderam as primeiras letras, pergunta a escritora, e responde: "Que vantagens foram buscar às escolas? Nenhumas. Nada ganharam. Perderam tudo. Felizes os que esqueceram as letras e voltam à enxada." João Ameal, escritor muito cotado à época, deixou escrito: "Portugal não necessita de escolas. (...) Ensinar a ler é corromper o atavismo da raça."»
Antes de 1974, os alunos do ensino secundário podiam escolher a frequência de dois tipos de escola: o ensino técnico, com ligação ao comércio e à indústria (por exemplo, a contabilidade incluía refinadas aulas de caligrafia, atividade que as más-línguas restringiam a amanuenses ou "mangas de alpaca"), e o ensino liceal, a via para a universidade. Ambos os tipos de ensino tinham igual estatuto de qualidade.
A redução categorial da oferta de ofícios minou a maior parte das perspetivas e mentalidades sociais - isto mesmo conclui o ensaio de Ricardo Paseyro Elogio do Analfabetismo -, onde o lugar de destaque pertence aos profissionais com uma certa familiaridade com os dicionários. A leitura e a decifração - aprendizagem demorada para quem não tem a vocação para as letras - não se obtêm da mesma maneira; a meio do processo brotam as afetações do iletrismo (mau domínio da leitura, da escrita ou das duas em simultâneo) e da iliteracia (dificuldade em ler e interpretar).
A capacidade de abstração é um exercício englobante usado na linguagem. Refere-se à habilidade de identificar e isolar caraterísticas essenciais de um objeto ou ideia, ignorando, diz-se, detalhes irrelevantes. Permite que pensemos em conceitos, teorias e padrões gerais, em vez de nos limitarmos a factos específicos e concretos. Todavia, num exemplo simples, para o iniciante na linguagem, enredado no mecanismo de grafemas e morfemas, a palavra "cadeira" assume apenas o reconhecimento da sua função (sentar) e ignora toda uma vasta gama de fabrico manual e mecânica, como a cor, o material, o estilo, etc., que afasta o aluno da intimidade e manualidade do objeto.
E, por fim, um excerto, ligeiro, caricato, de 1985. Trata-se da abertura, perigosamente acutilante e maliciosa, de um artigo do escritor Jorge Campos Tavares, no jornal O Primeiro de Janeiro: «O Dr. Fernando Falcão Machado, homem de espírito jovial e alegre perceção das coisas, compôs uma cantilena que não resisto a transcrever: Em cada cidade / Uma universidade / Em cada vilória / Um curso de história / Em cada freguesia / Um de filosofia / Por esses casais / Ciências sociais / E por todo o lado, música, cinema, teatro e bailado. Este comentário humorístico às iniciativas culturais que nos rodeiam (ia dizer que nos afligem) têm o seu quê de crítica realista ao nosso ensino e também ao descurar as aprendizagens de técnicos e ofícios práticos essenciais ao dia a dia da vivência dum Povo.»
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* Tradução de José Ribeiro Ferreira, Edições 70.















