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Dias a Fio

Um bosque, vendo-se à direita uma cabana

Dias a Fio

Um bosque, vendo-se à direita uma cabana

Rés-vés Campo de Ourique

Oh! edades cegas! Oh! gentilezas enganadas! Oh! descripções mal entendidas - Vieira

31.12.25

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Victor Vasarely, 'Kaglo', s/ data. Acrílico sobre tela, 261,6 x 261,6 cm. Coleção Norlinda e José Lima, em depósito de longo prazo no Centro de Arte Oliva, São João da Madeira.

 

➿🫟🫧🎶🌀

 

        Não falo do acesso massificado à leitura através da imprensa, coisa que me era habitual em tempos, a par com a das revistas. Fui admirador convicto da letra impressa, da forma de paginação e da mancha gráfica. Esse fascínio manteve-se nas edições marginais de poesia e no trabalho dos seus ousados tipógrafos. Mas – alto lá! – nessa época, o livro era a fantasia e o jornal a verdade. Agora, quanto à televisão, é difícil de evitar. Ela está presente e ligada em qualquer sítio público, em nossa casa e na das pessoas que visitamos. Sem sobreaviso. 

        Mais ou menos em 1985, apareceu-me de supetão no ecrã de TV uma moça chamada Clara Pinto Correia. Numa entrevista, ela enumerava com energia as coisas novas e urgentes a fazer em democracia. Era mais uma das vozes femininas brilhantes no alvorecer do novo regime político, que me parecia ver florescer até cerca de 1998, o ano do Nobel de Saramago. Estávamos sob os olhares do mundo. E depois, pronto!  

“E, entretanto, na sua face visível, foi substituída por outra ditadura diferente, que nós ainda entendemos mal, e que não se fez anunciar por hino absolutamente nenhum.” (Pinto Correia, 2004) 

        Autora de obra extensa, romanesca e científica, Pinto Correia acabou por se tornar a “escritora maldita”. Um epíteto aureolado, por cá, a escritores de manifestos, que dificilmente fariam jus à vastidão da sua obra. Não terminei a leitura de alguns romances desta autora e consultei outros, de informação científica. Adeus, Princesa (1985) é um exercício bem feito e legível, mas tem um pormenor que fraciona a narrativa: não se explica, para quem não sabe, o que faz uma base militar alemã no Alentejo, como nasceu ou porquê. Um Esquema (1985) é o terceiro livro, pequeno romance como peixe na água no ar do tempo, ilustrado com os típicos desenhos de Jorge Colombo. 

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        Pinto Correia entregou-se convictamente a todos os assuntos que achou necessário oferecer aos leitores, tendo por base a noção elevada do debate e a perda de critérios e conceitos de hierarquia. Enquanto professora universitária, publicou um extenso manual muito criativo: Complementos Indirectos – Um Guia Prático Para Uma Escrita Feliz Em Português 

        Documento ousado é, sem dúvida, Trinta Anos de Democracia – E Depois, Pronto (2004). Desiludida, fez um detalhado diagnóstico negativo da democracia portuguesa. O resultado é cortante, mas passou despercebido. Ultrapassa em muito as aporias de outro “best-seller” na mesma coleção, Portugal, Hoje – O Medo de Existir, de José Gil. 

        A minha derradeira referência a Clara Pinto Correia é a tal exposição das fotos dos orgasmos. Em relação a este evento - que, segundo dizem, a afastou dos trabalhos profissionais - descarreguei da internet, na altura, os textos de apresentação dos artistas, incluindo um prólogo de outra escritora. Enquanto o texto do fotógrafo era banal, Pinto Correia entregava-se a uma justificação generosa e livre de preconceitos, abordando uma visão pessoal e ousada dos parâmetros eróticos dos dois sexos desde a antiguidade. A meu ver, um texto próximo de Bernini na representação de Teresa de Ávila e no misticismo dos textos que à santa são atribuídos: 

Vi em sua mão uma longa lança de ouro e, na ponta do ferro, parecia haver um pequeno fogo. Ele me pareceu estar empurrando-o às vezes em meu coração e perfurando minhas próprias entranhas; quando ele puxou para fora, ele parecia atraí-los também, e me deixar toda em chamas com um grande amor de Deus. A dor era tão grande que me fez gemer; e, no entanto, tão extraordinária era a doçura dessa dor excessiva, que eu não podia querer me livrar dela. (Excertos da obra 'Livro da Vida', Santa Teresa de Ávila) 

        E depois, pronto! Termino a evocação da memória de uma autora cuja obra não é, em si, toda a revolução... mas, diria eu, rés-vés Campo de Ourique! 

natal-billboard Em www.bertrand.pt mw-ESCOLAR

Especiaria 'in tabula rasa'

Oh! letras! vós sois as chaves / Das portas do paraíso - Gonçalves Crespo

25.12.25

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Damien Hirst, 'Catherine Wheel', 2006. Mixmedia gouache and watercolor intervention, 112 x 91,5 cm. Coleção Norlinda e José Lima em depósito de longo prazo no Centro de Arte Oliva, São João da Madeira

 

𖥘𖧄𖧟𖦮𖥸

 

        Está provado que a maioria dos amantes da arte literária são os que gostam de escrever, e fazem-no. Outros só escrevem mentalmente, mas não em termos físicos. Quanto à evolução do hábito da leitura... Primeiro, lê-se por diversão. Depois, por curiosidade. Por fim, em resposta a um estímulo. É neste estádio que se levantam questões e se procuram respostas no horizonte literário. 

        Falemos, agora, de um escritor verdadeiro. Não li ainda a obra integral de Pedro Paixão. No entanto, o mercado, o público e a memorabilia registam um título, A Noiva Judia, lançado no tempo certo. Vi consumidores de Dan Brown, no supermercado, atirando-se ao Girls in Bikini; ouvi animadas conversas com o novo jargão “viver todos os dias cansa” (o título do seu quinto livro). Quando, há meses, procurava o Espécie de Amor, a resposta repetida era «Esgotado», até me dar conta da sua reedição. Numa entrevista antiga, o autor achava este o seu melhor livro, e isso, inclusive, fazia-o autoproclamar-se o melhor escritor da sua geração. 

        Espécie de Amor (2.ª ed., revista e atualizada, Glaciar, 2025) é, em suma, um romance num só parágrafo, uma longa confissão acerca da inesquecível amizade de coabitação, durante três anos, cuja intimidade - poética, intelectual, artística e financeira (os namoros femininos não são esmiuçados) - precisava de regras estruturais e se extinguiu pelo afastamento gradual de ambos. Os episódios incomuns são revelados tranquilamente, e os casos normais têm o seu quê de insólito, tudo na receita certa para surpreender o leitor. A crítica e a interpretação geral admitem tratar-se da relação de camaradagem do autor com Miguel Esteves Cardoso, a quem dedica o livro. Será uma revelação... desautorizada? 

        Como encomendei antecipadamente o livro, recebi-o autografado. Depois disso, num contacto confirmativo, o telefonista-livreiro até percebeu mal o termo autografado, julgando que a minha encomenda fora anulada. Isto foi motivo extra para me lembrar, entre muitas outras referências, do valor de um autógrafo e de fragmentos de Wittgenstein (tão citado no livro).

        "O valor de um manuscrito consiste em que ele é o resultado de um trabalho que mais ninguém poderia ter feito" (Wittgenstein). Este valor, poderíamos dizer, acresce ainda no caso do autógrafo - também este um manuscrito - por comportar um dos mais valiosos traços da identidade do autor: o seu nome. "O homem pode mentir, dissimular, negar; por vezes o retrato embeleza; um livro e uma carta talvez mintam. Mas há uma coisa em que a criatura está ligada indissoluvelmente à verdade mais íntima do seu ser - é a sua caligrafia" (Stefan Zweig, Significado e Beleza dos Autógrafos). 

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