Atrás da velha casa estendia-se um quintal
Mais quero/A noite negra, irmã do desespero.../Do que a luz matinal...a luz bendita! - A. de Quental
20.06.25

A minha leitura de Pela Noite Dentro – Contos e Outros Escritos (DG edições, Linda-a-Velha, 2025, capa de Olga Cardoso Pinto) não foi semelhante à descrita por um leitor de Sousa Costa - lido duma só vez, avidamente, numa noite de encanto fremente -, mas quase. Esta nova seleta de José da Xã (do, entre outros, blogue LadosAB), com uma capa mais sombria, continua o picaresco habitual burilado pelo autor.
A estrutura é harmoniosas, os diálogos exímios. A galeria das personagens é bem variada: leves traços são suficientes para as caraterizar e se impôr diante de nós, indefesas perante o destino, mas enredadas numa ruralidade mais salvífica do que opressiva. E se acaso algumas figuras rumam a cidade, regressam com o sentido do vazio, exceto no caso de Os Felícios, cuja estirpe e prole estão na urbe como peixe na água.

Pareceu-me ouvir, por exemplo, aos primeiros textos, o chamamento das narrativas breves de Raul Correia ou Os Contos do Tio Joaquim, de Rodrigo Paganino. Mas, sem demora, tudo muda. O lagarto - Baltazar - surpreende, como se o término ressumbrasse o esgar malicioso, noite fora, quando os olhos cansados ficam pregados no estuque do quarto. O diabrete, se houver, surge no mariola homónimo de O Nome Pedro - e, na confusão, é bem possível entrarmos também na novela Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Vale igualmente referir Amor tropical, moderna versão saída dos folhosos Contos de Histórias de Proveito e Exemplo, de Gonçalo Fernandes Trancoso. E até um epígono de Charles Bukowski toma forma na Longa noite, a lutar, à cabeceira da cama, contra a chama viva da inspiração.
Fica ao critério do leitor distinguir entre os contos e os outros escritos. É difícil interromper a obsessiva leitura antes do fim. Este é um estilo desafetado que já o tínhamos visto em crónicas, mas não em contos.


