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Dias a Fio

Um bosque, vendo-se à direita uma cabana

Dias a Fio

Um bosque, vendo-se à direita uma cabana

"Et tap, et tap, et tap..."

Alegria ingénua/perante as coisas novas/e esta vontade de brincar - Sebastião da Gama

26.11.25

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         De que forma a canção da francesa Jacqueline François, Les lavandières du Portugal, tem relação com Astérix, o herói da BD? Esta e outras singularidades podemos apreendê-las no livro As Aventuras de Goscinny e Uderzo Entre os Lusitanos, do jornalista Frederico Duarte Carvalho (edição Polvo, outubro 2025). 

        No país ideal, este livro apareceria no mercado junto ao recentíssimo Astérix Na Lusitânia, da dupla Fabcaro-Conrad. Leríamos, então, as andanças do pequeno gaulês em terra lusitana, no tempo do império romano, a par com este guia que podemos apelidar de sagaz, e que relata as conexões - mais e menos conhecidas - da popular criação da BD francesa, com o nosso jardim à beira-mar plantado. Carvalho não conseguiu o desiderato, embora tenha tentado... e era merecido!  Na condição de fã antigo e assumido, conseguiu satisfazer o leitor português com pequenas histórias, marginália, confidências de Goscinny e de Uderzo, pormenores gráficos, excertos de arquivos, fotografias de Goscinny - incluindo algumas com 11 anos de idade, em ambiente familiar, em Lisboa -páginas do script esquemático que liga o texto ao desenho, uma bibliografia condizente (e inesperada), como a tradução portuguesa de 1972 de memórias de viagens de cruzeiro escritas por Goscinny. O autor, num relato pessoalíssimo, venerando os autores da BD, conseguiu ainda as colaborações preciosas do celebrado especialista de banda desenhada Numa Sadoul e do Institut René Goscinny. 

        Haveremos de concluir, portanto, que as referências a Portugal saltam mais vezes das linhas das histórias do irredutível gaulês do que aquelas que, num primeiro olhar, poderíamos intuir.  

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Ó Pá, Por Tutatis!

Como pássaros poisam as folhas na terra/quando o outono desce veladamente sobre os campos - Ruy Belo

10.11.25

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Arte Portuguesa - XV

Carlos Bonvalot, "Senhora com criança numa rua de Cascais", 1923. Óleo sobre tela, 58 x 38 cm. Coleção particular.

 

        Chegado ao fim da leitura do álbum Astérix na Lusitânia, alguns corolários e conjeturas começaram a sobressair. Esta última produção da célebre banda desenhada gaulesa - ao contrário das sequências harmoniosas da dupla Goscinny-Uderzo -, exibe o que se pode chamar de hiatos sensíveis e, simultaneamente, exageros de pormenor. 

        Anoto alguns considerandos e conjeturas. Por que motivo em Olisipo, «o maior porto comercial do mundo romano», não se vê um transeunte negro ou africano? Suspeito que, num outro argumento, de Goscinny, Astérix viajaria até aos Montes Hermínios, o tal refúgio de Viriato e, assim, transcorreria a história para além de Olisipo. Não aposto, mas pressinto que da próxima vez Astérix rumará a Trácia (atuais Roménia e Bulgária), para onde foi exilado Ovídio. Não havendo um chefe renitente, como Viriato - mas todo um povo rebelde cuja luta levou os vencedores a justiceiramente batizarem a terra como România -, os naturais apelarão à divindade protetora de Zalmoxis. 

        Viriato, o pastor líder das tribos lusitanas - traído e capturado do mesmo modo que o hodierno Jonas Savimbi -, tem a referência sisuda para a versão «Roma não paga a traidores». Viriato é um termo de origem semita, significando "Mediador (ou Moderador) do Convénio", aquele que convoca as cidades lusitanas para a guerra. Quando Aníbal passou na Península Ibérica para tomar Roma, o comandante do Corpo Lusitano era um Viriato; quase um século depois, um outro chefe militar homónimo dirige a oposição à invasão romana na Península. Depois disso nunca mais se ouve falar dele.

 

        Sinto dever acrescentar que, para um público juvenil ou pouco conhecedor, o "Garum" - que historicamente existiu - poderá não ser apresentado corretamente na obra e constituir falha didática. Este tinha os seus reservatórios de salga de peixe na Península de Tróia, de onde saíam as embarcações, contrariamente ao que é referido na B.D., que coloca a embarcação (do maior complexo de produção do mundo romano do molho à base de peixe) no porto em Olisipo.

        Outro aspeto que pode confundir o leitor é a alteração da panorâmica de Olisipo nas duas referências visuais. A impossibilidade de ver o afluente ou córrego do Tejo no segundo quadrinho, pela perspetiva apresentada - a par com o trecho narrativo que se segue - pode levantar um questionamento quanto ao local exato em que decorre a ação. Isto porque a ação decorre no porto... e a disparidade visual cria uma bizarria se a referência é ao porto de Olisipo ou à urbe homónima. 

        Ainda que reverente pela visita de Asterix, este lusitano leitor considera que faltou uma pitada de savoir faire na conceção quadrinizada, que conferisse à obra a elegância dos criadores originais. 

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