Especiaria 'in tabula rasa'
Oh! letras! vós sois as chaves / Das portas do paraíso - Gonçalves Crespo
25.12.25

Damien Hirst, 'Catherine Wheel', 2006. Mixmedia gouache and watercolor intervention, 112 x 91,5 cm. Coleção Norlinda e José Lima em depósito de longo prazo no Centro de Arte Oliva, São João da Madeira
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Está provado que a maioria dos amantes da arte literária são os que gostam de escrever, e fazem-no. Outros só escrevem mentalmente, mas não em termos físicos. Quanto à evolução do hábito da leitura... Primeiro, lê-se por diversão. Depois, por curiosidade. Por fim, em resposta a um estímulo. É neste estádio que se levantam questões e se procuram respostas no horizonte literário.
Falemos, agora, de um escritor verdadeiro. Não li ainda a obra integral de Pedro Paixão. No entanto, o mercado, o público e a memorabilia registam um título, A Noiva Judia, lançado no tempo certo. Vi consumidores de Dan Brown, no supermercado, atirando-se ao Girls in Bikini; ouvi animadas conversas com o novo jargão “viver todos os dias cansa” (o título do seu quinto livro). Quando, há meses, procurava o Espécie de Amor, a resposta repetida era «Esgotado», até me dar conta da sua reedição. Numa entrevista antiga, o autor achava este o seu melhor livro, e isso, inclusive, fazia-o autoproclamar-se o melhor escritor da sua geração.
Espécie de Amor (2.ª ed., revista e atualizada, Glaciar, 2025) é, em suma, um romance num só parágrafo, uma longa confissão acerca da inesquecível amizade de coabitação, durante três anos, cuja intimidade - poética, intelectual, artística e financeira (os namoros femininos não são esmiuçados) - precisava de regras estruturais e se extinguiu pelo afastamento gradual de ambos. Os episódios incomuns são revelados tranquilamente, e os casos normais têm o seu quê de insólito, tudo na receita certa para surpreender o leitor. A crítica e a interpretação geral admitem tratar-se da relação de camaradagem do autor com Miguel Esteves Cardoso, a quem dedica o livro. Será uma revelação... desautorizada?
Como encomendei antecipadamente o livro, recebi-o autografado. Depois disso, num contacto confirmativo, o telefonista-livreiro até percebeu mal o termo autografado, julgando que a minha encomenda fora anulada. Isto foi motivo extra para me lembrar, entre muitas outras referências, do valor de um autógrafo e de fragmentos de Wittgenstein (tão citado no livro).
"O valor de um manuscrito consiste em que ele é o resultado de um trabalho que mais ninguém poderia ter feito" (Wittgenstein). Este valor, poderíamos dizer, acresce ainda no caso do autógrafo - também este um manuscrito - por comportar um dos mais valiosos traços da identidade do autor: o seu nome. "O homem pode mentir, dissimular, negar; por vezes o retrato embeleza; um livro e uma carta talvez mintam. Mas há uma coisa em que a criatura está ligada indissoluvelmente à verdade mais íntima do seu ser - é a sua caligrafia" (Stefan Zweig, Significado e Beleza dos Autógrafos).



