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Dias a Fio

Um bosque, vendo-se à direita uma cabana

Dias a Fio

Um bosque, vendo-se à direita uma cabana

O comércio da leitura

Caem, / gordas, sonoras, /monótonas pingas de chuva - Adolfo Casais Monteiro

26.10.25

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        Aparentemente parado, este blogue está, no entanto, em marcha lenta. De modo que, hoje, a propósito de um achado no alfarrabista, menciono Inquérito Ao Livro Em Portugal, de Irene Lisboa (Seara Nova, 1944), uma panorâmica dos editores e livreiros de Portugal, incluindo uma livraria da antiga Lourenço Marques.

        Começo pela livraria Latina. Há alguns anos, fui lá de propósito, avisado de que, no primeiro andar, no canto por cima da entrada, havia um número da revista Castriana. Assim era! Deambulei ainda um bom bocado, a ver as prateleiras, mas os meus fundos eram escassos.  

         «Ao contrário das outras livrarias do Porto, onde os livros ainda se empilham desgraciosamente por onde calha, dando-nos sempre a impressão de armazéns, de lojas sem pretensões, para fregueses de pouca monta ou então de passagem, que trazem a lista do que querem ou que pedem conselho ao caixeiro, que têm obrigação de conhecer a mercadoria – ao contrário delas, dizíamos, a Latina esmerou-se e tomou um aspeto novo: apresenta-se bem arrumada e oferece aos seus visitantes espaço e cómodos para  leitura (...) Henrique Perdigão [o proprietário] está disposto a conversar... o livro vende-se, diz, mas carece sempre de ser bem conhecido, isto é, que dele se ocupe e fale quem, afinal, deve. As primeiras formas de tornar conhecido qualquer livro são o “anúncio” e a “crítica” - é a colaboração gratuita ou paga na imprensa publicitária: jornais, revistas, etc.» 

        As livrarias portuenses que conheço não são impassíveis. Na verdade, são anódinas: o acolhimento, a oferta que junta o moderno e o antigo expostos ao mesmo nível. Ouso realçar, por exemplo, as antigas visitas à Livraria Leitura, também com primeiro andar, onde se marcavam secções e, em cada uma delas, uma auspiciosa variedade internacional.  

        Já a Livraria Lello destaca-se pela singular arquitetura... um mundo à parte. «A Livraria Lello, na Rua das Carmelitas, é grande, até grandiosa, com os seus madeiramentos ricos, o seu grande fundo e as suas pilhas de livros.» Raul Lello, então proprietário, atribui à guerra em andamento uma influência nefasta sobre a ação editorial, mas, mesmo assim, cultiva a amizade pelos grandes editores franceses (Plon, Calmann, Flammarion). «Para ele, o Brasil é um campo de atividades conhecido e seguro. Não lhe oferece os inconvenientes dos mercados a distância, visto lá ter estabelecido abertamente os seus interesses e em condições de poder fiscalizar. A África, sim, afigura-se-lhe, por hora, mau campo de exploração. Cresce em população e diminui em consumo literário.» 

        Muitas observações curiosas de diferentes vozes acrescem ao longo deste inquérito. Por exemplo, há queixas de que não há crítica literária adequada, além de a imprensa dedicar mais espaço ao desporto do que aos livros. A constatação de que não somos nós, mas o Brasil, a abastecer as colónias portuguesas da América do Norte. Só dois escritores portugueses (não são mencionados os nomes) vivem exclusiva e decentemente da arte literária. Um editor alfacinha é sucinto diante da autora: o escritor nacional não interessa, é pobre de ideias, convinha-lhe receber ideias do editor, precisava dos palpites deste... Não é expansivo nem agrada como o bom autor estrangeiro, nem tem o seu poder de sedução. «O público não se fia nele, não o crê!»

        Quanto à relação comercial com o Brasil, o nosso conhecido Jaime Cortesão (diretor literário de Livros de Portugal, com sede na rua do Ouvidor, do Rio de Janeiro) pondera: «O problema comercial e cultural da literatura portuguesa no Brasil, deve talvez ser visto através de um prisma característicamente espiritual. Não nos importa atravancar o Brasil de livros (dado que ele no-los aceitasse e consumisse), para melhor dizer, de livros sem escolha - visto o leitor brasileiro já ter muito fornecedor literário. Importa-nos, sim, e compensar-nos-à possivelmente, fornecer-lhe o que o escritor português particularmente ou quasi exclusivamente lhe pode fornecer: estudos de especialidade (históricos e literários) e obras de carácter idiomático e íncola, para deixarmos de empregar a estafada palavra 'nacional'. Aquelas obras que têm caraterizado e continuarão caraterizando o homem português, possuído dos seus interesses morais, sentimentais e estéticos, marcado do ferro da terra... A sua poesia, o seu romance, o seu ensaio crítico.»

natal-billboard Em www.bertrand.pt mw-ESCOLAR

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